segunda-feira, 26 de junho de 2017

Contos da Cólera Calorosa : Minha velha amiga.

A menina caminhava por entre vales e montanhas, e lembrava-se do antes que nunca existiu.
Como era possível lembrar-se de nada e de tudo ao mesmo tempo?
Não sabia.
Então que se deparou com uma senhora velha, não tão simpática.
Fedia um pouco, na verdade tinha um cheiro forte de armário, de guardado, de lembrança esquecida em qualquer baú no sótão.
Trajava uma capa preta desbotada pelo tempo, com as barras rasgadas e comidas, mas tinha os cabelos alinhados em um bonito e simples coque e grandes olhos que não sabia distinguir se eram azuis cristalinos ou um cinza nebuloso.
A velha senhora trazia consigo um carrinho engraçado cheio de embrulhos e presentes, alguns de aparência duvidosa, já outros reluzentes como manhã de Natal.
-Olá velha amiga! - Disse a senhora adiantando alguns passos até a garota.
- Oi! Me desculpe, mas nós nos conhecemos?
- Nos conhecemos desde de sempre, e ainda assim não nos conhecemos ainda, e não sei se nos conheceremos.
- Estou um tanto confusa.
- Confusa não garota, a Confusão não anda por esses vales e montanhas, ela ficou ainda ali no começo da estrada... A Confusão é o caminho até mim.
- E quem é você, minha senhora?
- Quanta rispidez pra um corpo tão pequeno! Eu sou a Dúvida.
- Sem dúvidas nos conhecemos! Quer dizer... errr...
- De relance e passagem, mas nunca me instalei no mesmo lugar que ti por muito tempo.
- Por que?
- Quem pergunta sempre tem respostas, ou menos um vislumbre delas. Quem tem dúvidas habitualmente pergunta apenas a si mesmo, e muitas vezes a resposta não mora em seus corações e sim nos alheios.
- Eu não entendo, como as pessoas conseguem viver com você?
- Eu não sou de toda ruim, você sabe? Vez ou outra eu dou aos amantes, amigos, empresários e uniões um benefício: O meu benefício. Isso faz com que alguns corajosos se aventurem por além de seus limites, permitindo novas experiências para aqueles corações que já não creem mais.
- Os desesperançosos?
- Sim. Eu permito que eles renasçam com uma fagulha, que não tomem suas experiências a ferro e fogo.
- Isso parece bastante nobre.
- Nos primórdios era esse meu papel: Ajudar a evitar riscos, e beneficiar os desacreditados. Mas me desvirtuaram. Pensam demais em coisas demais que não conhecem, não viveram, não estavam lá. E se perguntam " Por que não eu? Por que não comigo? Eu queria essa parte pra mim" E então recebo visitas intermitentes da Dor, Inveja, Ciúme e vez ou outra até da tão jovem Ansiedade.
- Você é triste?
-Bastante. Vejo corações se partindo por ilusões criadas a partir de mim, mas a verdade eu nunca estive ali, Eu nasço de coisas que não deveria, eu mato coisas que eu não deveria. Mas é o meu trabalho.
- Eu sinto muito.
- Eu também.